Oceana Basílio: "Nunca olhei para mim como uma mulher bonita"

Prestes a completar 35 anos, a atriz que dá vida a Clara na série da RTP <em>Bem-Vindos a Beirais</em> revela-se à <strong>Notícias TV</strong>. Garante que sempre quis representar, diz que gosta de fazer personagens diferentes, que sente a crise e critica o estado do País. Fala de política, de invejas, do peso da imagem e da paixão incondicional pela filha. Eis Oceana Basílio, a nu.
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De onde vem o seu primeiro nome, que é tão invulgar?

O meu pai era fascinado pela Atlântida e pelo seu desaparecimento. Quando o meu irmão mais velho nasceu, os meus pais deram-lhe o nome de Atlante - os habitantes da Atlântida eram os atlantes. No meu caso, também queriam que tivesse alguma coisa que ver, e o que a minha mãe me conta é que assim que o meu pai chegou ao hospital, eu tinha acabado de nascer, ela fez um gesto largo e disse que queria que o meu nome fosse algo bonito, sereno e muito grande ao mesmo tempo. Ele disse Oceana e ficou, não pensaram em mais nenhum nome.

Nasceu e cresceu num meio pequeno, no Algarve. Teve uma infância feliz?

Foi uma infância muito feliz. A minha avó paterna era de Lisboa, e apesar de vivermos em Tavira viajávamos muito e vínhamos muito à capital. Mas de que me lembro mais é da minha família materna, das férias de verão em Cabanas de Tavira, íamos dormir para a praia, os primos todos, era uma liberdade fantástica. Recordo-me de que comecei a ajudar os meus avós no restaurante - o primeiro que houve em Cabanas - e adorava. Passava lá muita gente interessante, lembro-me de carregar as grades de Cola e de cerveja e de fecharmos o restaurante com o meu avô a cantar o Grândola, vila morena (risos). Tive dois lados familiares muito diferentes mas que me preencheram muito.

Tem mais irmãos?

Somos quatro irmãos e todos com nomes que têm que ver com o mar. O mais velho [Atlante] tem 35 anos, depois sou eu, tenho outro com 19, o Jonas, e a Lusa - que era para se chamar Musa - com 14.

Como foi crescer numa família grande?

Foi giro. As recordações que tenho da infância são mais com o Atlante, que era o irmão mais velho. Quando eu tinha 13 anos nasceu o Jonas, eu vim para Lisboa aos 16 e a Lusa nasceu já eu estava na capital e tinha 20. Somos todos unidos, mas ao mesmo tempo estamos todos muito longe. O Atlante, por exemplo, vive na Áustria. Encontramo-nos todos uma vez por ano.

Foi viver para Lisboa muito nova, aos 16 anos, para estudar teatro. Os seus pais aceitaram bem a sua decisão?

O meu pai disse-me: "OK, se achas que vais para teatro porque não tens de estudar, esquece, porque vais ter de estudar muito." (risos). E assim foi. Eles ajudaram-me sempre em tudo, mas nunca foram uns pais muito absorventes, nem galinhas. O meu pai só me disse: "És tão mulher para ir como para voltar se for preciso."

Como foram esses primeiros tempos sozinha na capital?

Não me custou nada. Andava felicíssima. Estava a fazer o que gostava, e como tinha família e amigos cá...

Quis ser atriz desde sempre?

É estranho, mas sim. As minhas brincadeiras na escola, todos os trabalhos que grupo que fazia, fosse para que disciplina fosse, eu arranjava maneira de ser uma peça de teatro para apresentar as coisas. Em casa, os meus pais filmavam-me... Nessa altura não era o lado televisivo que me fascinava, o ser famosa, mas apenas o representar. Quando terminei o 9º ano, estava muito indecisa sobre o que havia de escolher. Vi num jornal as inscrições para a Escola Profissional de Teatro de Cascais e disse: é isto! E fui, inscrevi-me.

Começou a sua carreira no teatro, mas tornou-se conhecida do público em 2005 com a Carla dos Morangos com Açúcar, série juvenil da TVI. Foi uma experiência marcante?

Muito. Foi o meu primeiro projeto televisivo, a minha formação era apenas teatral e eu não percebia nada de câmaras. Marcou-me também porque tinha acabado de ser mãe. Não estava sequer a pensar entrar, fui porque me pediram imenso para ir ao casting. De repente, ligaram-me a dizer que tinha ficado, eu estava com o meu grupo de teatro em Braga e pensei: "Agora o que é que eu faço para gerir isto tudo?" A minha filha não tinha um ano sequer! Gostava daquela personagem, mas agora olho para trás e há imensas coisas que penso: "Como é que fiz aquilo assim?" (risos).

Chega a protagonista aos 34 anos, em Bem-Vindos a Beirais, série que a RTP transmite atualmente. É cedo ou tarde?

Acho que as coisas chegam no tempo certo, não é cedo nem é tarde. E honestamente não me sinto uma protagonista, talvez só na carga de trabalho. Acho que esta série é de todos e que poderia continuar sem mim, sem o Pêpê Rapazote... porque a equipa é tão rica, as histórias...

Esta personagem foi um presente na sua carreira?

Acho que todas são um presente. O maior presente foi o público, não esperava que fosse tão bem aceite, era um projeto pequeno à partida, muito levezinho, e de repente começamos a sentir este carinho e começou a tornar-se um projeto ainda mais especial. Foi crescendo. Tornámo-nos quase família, é um projeto que vai ficar em todos nós muito marcado.

Não sente uma responsabilidade acrescida por ter um papel com mais peso do que aquele a que estava habituada?

Não sinto isso. É sempre uma responsabilidade, aqui tenho um ritmo de trabalho mais intenso, mas também não é uma personagem mais dramática, que seja muito diferente daquilo que eu sou, apesar de termos características muito diferentes. Não sinto tanto essa coisa do desafio, do protagonismo, de ser uma grande personagem. A série em si é que é uma grande aposta.

Na série dá vida a Clara, uma mulher da cidade que por estar desempregada foi obrigada a começar de novo no campo. Numa altura de crise, essa tem sido a única saída de muitos portugueses. Sente que a sua personagem pode servir de exemplo para muita gente?

Acho que sim. Cada vez mais nas aldeias e nas pequenas cidades a qualidade de vida é muito melhor, a nível de oportunidades de negócio, de rendas, de muita coisa. Pessoalmente, se eu não fosse tão citadina também gostaria, mas sou e não consigo imaginar-me a viver muito tempo num sítio muito pequeno (risos).

Não conseguiria viver no campo?

Não posso dizer que não seria capaz, tenho a certeza de que me adapto a todas as circunstâncias. Mas neste momento não seria o meu ideal, também porque o que gosto de fazer profissionalmente passa pelas grandes cidades.

A Clara de Bem-Vindos a Beirais é uma mulher de armas, mas com algumas atitudes infantis, até impulsivas. Revê-se em alguma destas características da sua personagem?

Revejo-me mais na amizade. Ela é muito frontal com as amigas, depende muito delas e do amor para o resto correr bem. Na impulsividade e nas atitudes adolescentes não me identifico.

O que lhe dizem na rua as pessoas sobre a "sua" Clara?

Dizem que é muito gira, muito engraçada. Mas não falam só da Clara, falam da aldeia, do que viram no episódio anterior. Uma das coisas que acho mais giras é que recebo muitas mensagens de emigrantes, de França, Canadá, Suíça... Tento tirar uma hora todas as semanas para responder, ultimamente estou um bocadinho em falta (risos).

O que lhe dizem esses emigrantes?

Falam-me muito de quando saíram de Portugal, que a série faz-lhes lembrar a sua aldeia. É um bocadinho um aconchego para quem saiu de cá.

A Clara de Beirais vive um romance atribulado com a personagem Diogo, desempenhada por Pêpê Rapazote. Como tem sido contracenar com ele?

O Pêpê é fantástico, é hiperativo - ele vai-me matar por dizer isto (risos) -, é uma pessoa cheia de energia, e isso é ótimo. Às vezes estamos cansados e rimo-nos sempre, ele está sempre com piadas. Acho que para ser um par romântico ele é ótimo (risos).

Foi difícil fazer as cenas românticas com ele?

Eu sou muito cúmplice com o Pêpê a nível de trabalho. Somos tão amigos que é tudo natural, é normal dar-lhe um abraço, por exemplo, torna-se muito fácil.

A série tem sido elogiada pela crítica e agradado quer ao público quer aos responsáveis da RTP, tanto que inicialmente estava prevista apenas uma temporada e já está garantida uma terceira. Achou que ficaria apenas pela temporada inicial?

Nem sequer pensei nesses termos. Quando me convidaram nem havia ainda textos, apenas uma sinopse, e aceitei o desafio. Seriam apenas três meses, todo o elenco me pareceu interessante.

A que se deve este sucesso?

Sinto que as pessoas estão a precisar de algo leve, estamos a viver uma fase tão pesada... Nesta série não existe grande drama, são sempre histórias leves. E acho que reporta um bocadinho à aldeia, à amizade, à cumplicidade, e as pessoas gostam disso. Ver Bem-

-Vindos a Beirais é um momento de descontração.

A série está entre os dez programas mais vistos da RTP1, mas continua longe das novelas da SIC e da TVI no que diz respeito às audiências televisivas. O que é que falta para rivalizar com a concorrência?

Primeiro estamos a falar de um canal que tem muito menos audiências, em tudo. Depois, trata-se de um canal público, que nem sempre consegue cumprir os horários e que não tem as mesmas formas de trabalho das privadas, está sempre dependente de orçamentos do Estado, etc. Depois, acho que não houve bem a intenção de concorrer com as novelas, não me parece que seja um produto para concorrer com as novelas brasileiras ou com as portuguesas, que também estão a ficar com muito boa qualidade. É um produto diferente, para apanhar outro público. Quem vê muito Beirais também são as crianças, precisamente porque começa um bocadinho mais cedo e por ter histórias leves.

Além de Bem-Vindos a Beirais, este ano fez uma participação na novela da SIC Dancin" Days e entrou na curta-metragem O Cheiro das Velas, por exemplo. Tem sido um ano cheio ao nível profissional...

Sim. Na novela da SIC trabalhei com realizadores com quem já tinha trabalhado, e gostei muito de contracenar com o Albano [Jerónimo]. A Mafalda [de Dancin" Days] era uma personagem muito calma, foi uma participação de dois meses, mas foi giro. Quanto à curta-metragem, é daqueles projetos que têm um sabor especial. Foi feito de uma forma muito simples, sem pretensão nenhuma e que chegou a muitos sítios e a vários públicos. Ganhámos até prémios nos festivais de Faro e de Évora e competimos no Festival Internacional de Estudantes de Cinema de Hollywood. Fico contente por isso. Gosto muito da minha personagem, é muito diferente das que normalmente faço em televisão. Trata-se de uma mulher que gosta de mulheres, muito segura, dura, muito inteligente, e isso agrada-me imenso.

Foi difícil fazer essa mulher invulgar?

Não. Gosto mais de fazer personagens diferentes, é muito mais desafiante. Infelizmente, tenho tido mais oportunidade de as fazer no teatro, em peças não comerciais, com pouco público mas que foram as que mais me preencheram até hoje.

No seu currículo recente consta também a participação numa comédia romântica norte-americana, Body High, de Joe Marklin. E esteve quase a entrar no novo filme da estrela de cinema James Franco, As I Lay Dying. Fazer carreira lá fora era um sonho?

Não, não é. Sou muito pés na terra, vivo o dia de hoje. É claro que para qualquer ator é sempre um sonho trabalhar com bons atores e em bons projetos. Mas acabamos por perceber que o mundo é pequeno, o facto de ser Hollywood não me diz nada. Adorei a experiência, a minha personagem tem uma incidência muito pequena, faço uma italiana. Vou continuar a fazer castings, mas neste momento estou de corpo e alma em Bem-Vindos a Beirais.

Conhecendo outras realidades, como é que vê o meio artístico em Portugal?

É um meio pequeno. Portugal é um país pequeno. Temos só três canais generalistas, temos poucos teatros que conseguem sobreviver só com orçamentos...

Por ser um meio pequeno, existem mais invejas?

Como em tudo, existem os amigos, os grupos, tem sempre de se batalhar. Continuo a acreditar que se formos muito bons profissionais as coisas acontecem. É normal existir inveja em qualquer profissão, há sempe pessoas com bom e mau íntimo.

Costuma ver os trabalhos que faz? É muito crítica de si própria?

Muito, muito. Sou péssima (risos), principalmente em televisão. Às vezes quando vou ver as cenas no computador penso que ali podia ter dado outra intenção, podia ter feito de outra forma. Se calhar vejo aquelas coisas em que as pessoas não reparam (risos).

Quem é o seu maior crítico?

O meu pai, completamente. É um homem muito rigoroso, é muito crítico, odeia que eu fale mal português, que dê um erro, desde pequena (risos). Sempre foi uma pessoa que me fez batalhar para eu ser uma mulher muito culta e inteligente. E continua sempre muito atento, é raro dar-me uma crítica positiva, ele só me telefona quando eu erro ou digo uma palavra mal em português (risos).

Já experimentou fazer cinema, teatro e televisão. Qual das três artes prefere?

É muito difícil escolher. Adoro o ritmo da televisão, o teatro é magia, a adrenalina de ser um momento único só para aquelas pessoas que ali estão. Do cinema gosto pelo tempo que temos de dedicação à personagem, de reparar em pequenos pormenores e de os podermos discutir com o realizador. Em televisão não há esse tempo. Gosto mais de me ver em cinema, ao nível interior o teatro preenche-me mais e adoro o ritmo de trabalho na televisão.

Além da representação, a moda também faz parte da sua vida. Recentemente, até desfilou no Portugal Fashion. Sente-se tão à vontade na passerelle como em frente às câmaras?

Foi o meu primeiro desfile do género e achei piada à experiência, mas foi por brincadeira. Gostei do desafio. Gosto de moda, mas não sou obcecada, gosto muito de mulheres bonitas, de ver as minhas amigas arranjadas.

Também já posou para revistas masculinas, como a Maxim. Fê-lo numa fase específica ou voltaria a fazê-lo hoje?

Aceitei naquela altura porque os convites que recebi antes surgiram em fases em que não queria ficar ligada à imagem de uma mulher bombástica, queria mais preencher o meu outro lado artístico. Com a chegada aos 30 anos pensei: "OK, não me importo de fazer." Mas foram produções muito dentro do meu gosto. Se o repetiria? Depende muito do que se quiser das fotografias e da produção.

Sente o peso da imagem na sua profissão?

Em televisão existe muito esse peso, não se pode dizer que não. Comecei a cuidar mais de mim a partir dos 31, quando a Francisca começou a ficar mais crescidinha e comecei a ter tempo para olhar mais para mim (risos). Comecei a gostar de cuidar de mim e hoje sinto-me bem por ter tempo para cuidar de mim.

Tem cuidados especiais com a sua imagem ou com a boa forma?

Comecei a ter muito cuidado com desmaquilhar a pele, não ligava nada a essas coisas. Não sou muito obcecada pelo ginásio, adoro andar de skate e de jogar basquetebol; para mim é um desporto em que não penso em nada, e gosto de me sentir ágil. Há muita coisa que ainda quero fazer e não quero sentir o corpo a não acompanhar.

Convive bem com o estatuto de figura pública?

Às vezes. Normalmente convivo bem, mas gosto muito de preservar o meu dia a dia, que é supernormal. Eu tenho uma vida normal, vou às compras, ao supermercado, gosto de sair de casa sem estar preocupada se tenho que me maquilhar e gosto de preservar esse lado.

Sente-se ou alguma vez se sentiu uma estrela?

Em Portugal não existem estrelas, para se ser uma grande estrela e viver num patamar acima era preciso ganhar-se muito bem, mas isso não existe cá.

Como é que lida com o que se escreve sobre si?

Não ligo. Aprendi a relativizar. Não gosto é quando escrevem sobre pessoas próximas a mim, isso magoa-me.

O facto de manter uma relação amorosa com outra figura pública [o antigo futebolista a atual treinador Abel Xavier] condiciona-a de alguma forma?

Isso tem que ver com a forma como gerimos as coisas. Cada um tem o seu trabalho, não sinto necessidade de misturar as coisas.

Onde é que se vê aos 50 anos?

De preferência em cima de um palco.

E qual é o seu maior objetivo de vida?

É estar cá muitos anos e continuar a fazer aquilo de que gosto.

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